Estrada boa sim, escória não!

Há mais de 20 anos conheço a região de Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro. Comecei meu namoro com a Solange lá. Saudades da sextas-feiras, quando ía buscá-la na Faap para irmos direto ao destino. Em quase todos os finais de semana, até juntarmos as escovas, encarávamos a serra de 33 km de terra, pedras e muitos buracos. Para percorrer esse trajeto levávamos quase duas horas. E valia a pena.

A região compreende três vilarejos que pertencem ao município de Resende: Maringá, Maromba e a própria Visconde de Mauá, ou simplesmente Mauá. Nossa hospedagem quase sempre era na casa da Tia Santina em Maringá, que naquela época oferecia seus cafés da manhã, almoços e jantares na varanda na parte de trás de sua casa. Tudo era feito no fogão à lenha e os sabores e ares sensacionais. A simplicidade era nossa maior riqueza. Maringá tinha uma dúzia de lojas, alguns poucos restaurantes e um número já alto de pousadas, incluindo o hotel Buhler, o mais caro e tradicional.

A estrada melhorou muito. Os primeiros 15 km estão asfaltados e o restante não tem tantos buracos. O trajeto de ida pode ser feito em menos de uma hora. Lá em 1986 todos falavam que todos os 33 km seriam asfaltados em breve e que isso traria melhorias. Muitos habitantes eram contra, dizendo que o asfalto seria a desgraça de tudo. Passados todos esses anos, escutamos de novo que a verba já está aprovada e que as obras vão começar em breve. Um abaixo assinado está sendo feito contra o asfalto. As alegações são as mesmas. Maringá mudou muito. Os terrenos vazios sumiram – um dos poucos virou estacionamento – e a rua da ponte ficou irreconhecível. A via principal (apenas no centro) foi asfaltada e ficou mais estreita. As pousadas aumentaram. Não sei se o asfalto ajudará ou castigará a região. Uma faixa estava pendurada ao lado da cachoeira do Escorrega. Estava escrito: estrada boa sim, escória não!

Por duas vezes tentamos mudar para lá, desenvolver um negócio, mas o destino não quis. Na última tentativa em 1992, depois de termos escolhido um terreno para comprar, sofremos um grave acidente na via Dutra. A Solange quase passou a régua e desistimos de ir. Ficamos desde aquele ano sem voltar. E, agora no carnaval de 2008 resolvemos regressar, incentivados pelo nosso amigo Alexandre Chut, que nos convidou para conhecermos sua casa (sem energia elétrica) no alto de uma das maravilhosas montanhas da região.

No último dia de nossa estada, resolvemos ir até Maringá, onde deixamos de ter contato com a família da Tia Santina. Foi emocionamente encontrá-los 16 anos depois. As crianças Mauro, Graça e Beto cresceram, casaram e constituíram famílias. Mauro trabalha como servente em um hotel e nas horas que não está lá, cuida das mais de 20 colméias – tira por ano cerca de 200 litros de mel. Ele está no segundo casamento e tem quatro filhos. Graça tem uma loja ao lado do posto BR entre Mauá e Maringá e está construindo dois quartos em sua casa para alugar aos turistas. Ela também casou duas vezes e tem três filhos. Beto tem uma menina de dois anos, a linda Maria Clara. A Tia Santina continua cozinhando maravilhosamente bem, e, em seu pequeno restaurante pudemos saborear sua simples e deliciosa comida. Os outros três filhos, Cida, João e Zezé já eram casados naquela época. Amadureceram e continuam trabalhando e prosperando.

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1 Comentário

  1. Cris

    Concordo com você. Suas opiniões são firmes, com profundidade e ao mesmo tempo leves. Parabéns pelo seu blog.
    Xs
    Cris

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