Panetones, chocotones e outros tones

Perguntei para o caçula hoje de manhã o que significa o natal pra ele. Sem pensar ele respondeu: “alegria e dar presentes!” E o que é a alegria?, indaguei. “Ah, é que é o final do ano e ganhamos presentes!”, finalizou o pequeno. Brochei e pensei que preciso ter uma conversinha séria com ele. É óbvio que aos seis anos, o mundinho dele se baseia em brincadeiras e emoções fortíssimas como por exemplo participar de uma corrida de motocross na tela do computador ou ser levantado por mim até o teto da sala.

Na verdade, o que ele vê por aí sobre o natal? Milhares de pessoas fazendo compras na 25 de março e e outros centros comerciais. Rostinhos de crianças pedindo um presente pras câmeras de TV. Papais-noéis chegando de helicóptero e distribuindo pacotes e mais pacotes. Vovós perguntando, o que você quer ganhar netinho? O próprio presidente disse na TV que os brasileiros vão ter o melhor natal que a história desse país já viu, que devem pechinchar o máximo possível, que este é o momento certo, bláblábli blábláblá…

Além disso, o natal é representado também por panetones, chocotones, goiabatones e outros tones que são inventados todos os anos, como se fossem modelos de automóveis renovados a cada seis meses. Em junho já poderemos comprar um modelo 2010, que maravilha! O poder do marketing que nos faz viajar no tempo e ter a sensação que estamos à frente de todos!

Não podemos esquecer do formoso peru natalino e seus (também congelados) amigos frangões concebidos especialmente para decorar as fantásticas mesas repletas de maioneses, salpicões, lombos, tenders, pernis, frutas secas, mousses, bolotones e o que a imaginação estomacal permitir. Comer, beber (muito) e enfiar no freezer os problemas do cotidiano para que sejam descongelados no primeiro dia útil de janeiro.

Visão pessimista, realista ou individualista? Sei lá e, na verdade, quantas vezes vemos alguém dizer o verdadeiro motivo do natal? Talvez, naquele momento longo de dois minutos, quando estamos reunidos em volta da mesa prontos para atacá-la feito guerreiros neandertalescos e alguém resolve fazer uma oração, paramos, fechamos os olhos nos concentramos e rogamos para que o estômago não faça nenhum barulho borbulhante enquanto a tia faz seus agradecimentos. Depois disso, rolhas gargalares cruzam nos céus da sala de jantar enquanto vovôs e vovós atrasam a fila enquanto tentam, com mãos trêmulas, pegar a farofinha que recheia a última existência de alguma ave-anjo-do-natal.

Depois da festa alimentar e, enquanto ainda nos servimos daquela fatídica colher da sobremesa que provavelmente será o motivo da azia da madrugada, a badalada avisa que é meia-noite! Viva! Em cinco minutos todos os papéis dos presentes são assustadoramente rasgados, embalagens voam pelos ares resultando em sacos e mais sacos de lixo (reciclável) e, por fim, toda aquela ansiedade desaparece num passe de mágica.

O último proseco junto com a piada ingrata do cunhado e chega ao fim mais uma noite natalina. O pessoal vai embora pra suas casas. O sexo não rola porque o devaneio alimentar impossibilita qualquer chacoalho, o movimento da rua cessa e apenas o ronco nazal do pai poderá ser ouvido pela família que dorme aparentemente feliz.

No dia seguinte, os restos dos alimentos e dos sentimentos retornam aos seus lugares e a expectativa é lançada para a semana seguinte na espera do réveillon!

Será que o sarcasmo deste texto me permitirá fazer um desejo? Você poderá me afiançar? OK, vamos lá. Independente das religiões, todas as comemorações dessa espécie são muito parecidas. Paz, união, fraternidade, saúde, felicidade, prosperidade e outras dades são proferidas e desejadas por todos os povos. O meu desejo é que esses sentimentos não precisem esperar 12 meses para serem desejados. Podemos brindar o amor todos os dias! Podemos ter em nossos corações as razões diárias para transformarmos um simples pão com manteiga num banquete. Que a alegria seja uma constante! Que a paz e a união sejam semeados e colhidos por todos! Feliz Existência! Amor = Paz = Saúde! Fui!

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