A hotelaria deve ser a base da comunidade!

Na última quinta-feira (12) tivemos a satisfação em visitar a comunidade do Cantagalo, no Rio de Janeiro. A ideia surgiu quando avistamos, da cobertura do Ipanema Plaza, um moderno elevador que serve de transporte aos moradores que vivem lá.
– Aquela área acima é um mirante e a vista que se tem dali é muito bonita, disse o colaborador do hotel, apontando para a estrutura do elevador. E foi para lá que rumamos no dia do meu aniversário de 50 anos.

O objetivo era visitar apenas o mirante. Pegamos o elevador, subimos depois mais quatro lances de escada e lá estávamos. Constatamos que a vista era realmente muito interessante. Morro Dois Irmãos e o Leblon de um lado, o arquipélago das Cagarras na frente e a lagoa Rodrigo de Freitas à direita. Cliques feitos, resolvemos descer de escada, ao invés de tomar de volta o elevador.
Dois lances para baixo e pegamos a passarela para a comunidade, pois o acesso para baixo era feito a partir dela. Saímos e oh! Estávamos bem perto da entrada da Cantagalo!

Alguém quer entrar para conhecer?, perguntei para minha mulher, meu primo canadense e sua esposa. Nenhuma resposta, apenas rostos transformados em pontos de interrogação.
OK, vamos descer, então! Nisso toca meu celular. Atendo e fico encostado na grade, já no caminho da escadaria. Meus acompanhantes estavam olhando as casas e arriscando alguns cliques. Enquanto eu conversava no telefone, apareceu um simpático garoto. Terminei a ligação e ele disse:
Tudo bem? Eu moro aqui!
– Como é teu nome?
– Anderson
– E é legal morar aqui?
– É sim, vocês querem conhecer?
Confesso para você leitor que eu estava morrendo de vontade de conhecer a comunidade! Desde o primeiro contato visual.
Vamos sim!, concordei emendando um let’s go! para meus primos.

A expectativa? O que dizer? Desde pequeno que ouvia falar que na favela só tem bandido, que isso e aquilo. Os jornais, principalmente os do Rio, sempre fazendo alardes dramáticos. Mas ouvi também pessoas dizerem que tem muita gente trabalhadora e honesta morando ali.
Meus ímpetos sociais aliados a minha intuição diziam que seria uma experiência nova e emocionante, e realmente foi.

Paramos primeiro numa lanchonete e a dona do estabelecimento veio nos cumprimentar dizendo que a vista de alguns pontos da comunidade eram muito fascinantes e que nosso guia mirim, Anderson, poderia nos acompanhar.
A mãe dele trabalha aqui, podem ficar tranqüilos, ele é um ótimo menino!
– Vamos lá então!, falei entusiasmado.

Subimos alguns degraus e pegamos a viela da direita. Observei que havia lixo no chão.
Quanto lixo Anderson! Por que isso?, perguntei.
Ah, as pessoas jogam mesmo, mas a prefeitura já está instalando áreas para que a gente possa por lá para depois eles recolherem, respondeu o menino.
Olha, aqui é o campo de futebol!, apontou. É aqui que jogamos bola. Tem até campeonato!
Você joga bola? Quer ser jogador de futebol?
– Quero!

Algumas dezenas de metros adiante paramos no mirante.
Olha lá! Dá para ver a ponta de Copacabana!, disse Anderson.
E essas casas aí, fazem parte da Cantagalo?
Não, aí já é a comunidade de Pavão, Pavãozinho.
– E ela já é pacificada?
– Vamos lá no Brizolão?, desconversou o moleque.
É longe?
– Não, é logo ali e a vista lá é linda!
Na volta paramos na barraca que vendia havaianas.
Você vai comprar, né? Instiguei meu primo, que deixou R$ 70 em troca de quatro pares.
Nisso Anderson nos apresentou seu amigo Márcio.
Tudo bem?
– Tudo bem!
– Vamo lá no Brizolão?
Vamo!

Foi aí que realmente entramos na Cantagalo. A vista do mar acabou e não tínhamos mais a visão do céu. A viela ficou estreita, escura e emocionante! Fomos descendo, depois subimos, passamos por vários pontos comerciais, lavanderia, mercadinho, lanchonete… Numa curva demos de cara com a lagoa Rodrigo de Freitas.
Olha lá o Brizolão!, apontou Anderson. Tamo chegando!
Subimos e chegamos em uma rua calçada. Vários carros estacionados, inclusive um New Beetle.
– Essa rua vai ser asfaltada logo, avisou nosso anfitrião. Aqui é será o prédio onde os policiais vão morar.
E nesse prédio minha família tem um apartamento!, disse Márcio. Eles estão construindo vários deles e derrubando casa velhas e feias.
Será que um dia, não haverá mais “barracos”?

Passamos por dois policiais e entramos no Brizolão, a escola construída no primeiro mandato do ex-governador. A fórmula foi copiada e melhorada recentemente em São Paulo durante a gestão da Marta Suplicy, aquela que foi também nossa ministra.

Nesse percurso todo, minha cabeça foi fervilhando, imaginando um monte de ações que poderiam ser implantadas ali. Cursos de mensageiro, camareira, garçom, implantação de restaurantes, pousadas, lojas de artesanato, de um programa para erradicação do lixo por meio da reciclagem e de tratamento do orgânico, a geração de empregos, hotéis adotando trabalhadores, integração com a sociedade, vou falar com o Pedro Werneck, do Instituto da Criança, quero vir morar aqui, quero ajuda a transformar pessoas em cidadãos, vou convencer a Mônica Paixão a implantar um programa aqui, olha a horta comunitária…
Meus pensamentos foram interrompidos pelas palavras do Anderson:
Outro dia eu trouxe um turista e ele me deu vinte reais, ah e uma vez um moço estrangeiro me deu cinqüenta!, esperto o moleque de 9 anos…

A manhã daquele meu aniversário culminou na grande pedra atrás da escola, escalamos alguns passos e sentamos para observar a magnitude de um dos cartões postais dessa cidade que me entorpece com sua beleza. A vista para a Lagoa.
Sabiam que hoje é meu aniversário? Faço 50 anos, e esse foi um dos melhores presentes que já ganhei na vida, compatiihei com os meninos.
Puxa, não parece que você tem 50 anos, me presenteou Márcio.
Vocês precisam estudar e ajudar a fazer essa comunidade a ser um exemplo de vida. Essa é a missão de vocês. Ser líder daqui e transformar isso num paraíso, pedi para eles.
Tenho que ir para a escola, que horas são?, perguntou Anderson.
11h20
– É, tá na hora, vamos descer?

No caminho de volta, lembrei de Douglas Meneses, ex-diretor de Marketing do Staybridge São Paulo, e que hoje atua no mesmo cargo numa grande empresa de treinamento. Na última conversa que tivemos, ele me falou que já poderia ter deixado o bairro em que ele nasceu há muito tempo.
– O Bairro dos Pimentas é muito carente, eu já poderia ter saído de lá e estar vivendo em um local da zona Sul de São Paulo, mas não quis. Preferi ficar lá e ajudar minha comunidade, dar o exemplo. Tentar fazer a diferença. Viva.
Douglas tem duas casas no bairro. Uma é a sua morada e na outra ele ministra cursos de idiomas, além do de cidadania que faz semanalmente, em parceria com o Instituto da Criança. Viva.

Um outro viva para os futuros hoteleiros que vão abraçar as causas, olhar para fora de seus muros e perceber que toda a comunidade faz parte da história de suas vidas, e de seus hóspedes. Parabéns aos hoteleiros que ajudam, desenvolvem pessoas, envolvem. Quando todos eles fizerem o que tiver que ser feito, o mundo será melhor. Porque seus hotéis já são os melhores exemplos de vida que podem existir no seu entorno. Eles são a base da comunidade. Lá há reciclagem, há aprimoramento de vida, há bem estar. E o bem estar deve ser geral, na geral. E é para geral que vou! Aho!


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12 comentários

  1. Carla Cabral Costa

    Concordo que a vivência de Hotelaria?Turismo na Educação (palestras, mini cursos, estágios), será a contrapartida para a inserção de profissionais nas bases das Operações Hoteleiras.

    • blogdopeter

      Olá Carla, grato pelo comentário! Essa é uma das principais formas! Grande abraço!

  2. chris kokubo

    peter, grata por compartilhar. o seu texto está emocionante e muito motivador. vamos lá! viva!!

    • blogdopeter

      Valeu Chris! Beijo!

  3. Francisco Camargo

    Olá Peter,

    Primeiro, parabéns pelo seu aniversário. Parabéns pelo texto e pela bela experiência que viveu.

    Francisco Camargo

    • blogdopeter

      Francisco, agradeço! Forte abraço

  4. marco serafin

    Qual o elo de ligação entre o título e o desenvolvimento do texto? A hotelaria ser base da comunidade tem qual ligação com o morro de determinada comunidade do Rio de Janeiro?
    Acho impossível trabalhar hotelaria, com a quantidade de exigências atuais, para inserção de comunidades carentes, enfim…achei que o texto abordaria um tema interessante, que discordo, mas interessante, porém é um relato de uma visita apenas.Uma pena.

    • blogdopeter

      Olá Marco, grato pelo comentário.
      O elo de ligação entre o título e o texto é exatamente o que escrevo nele; os hotéis e seus gestores precisam aprender a olhar para o seu entorno e não apenas para o seu hotel, podem por exemplo, interferir nas comunidades, como o do Cantagalo, e auxiliar no seu desenvolvimento, em prol de todos, por quê? Porque o hóspede geralmente sai do hotel, caminha, vai até a esquina, consome, fotografa. E de que adianta, ao redor do hotel, você ter lixo, entulho e outras intempéries visuais? É preciso trabalhar olhando para fora e não para dentro.
      Um abraço

  5. Tatiana Nakamura Torres

    Peter! Parabéns pelo aniversário e pelo post!
    Realmente, temos que deixar de olhar somente para nosso umbigo, deixar de viver somente no nosso mundinho!
    Se todos os gestores dedicarem um pouquinho do seu tempo para tentar melhorar a vida do próximo, o mundo seria muito melhor!
    Pode contar comigo para suas aventuras voluntárias!!!
    Um forte abraço!
    Tati

    • blogdopeter

      Valeu Tatiana! Grande abraço!

  6. Peter, Adorei , seria tão bom se todos entendessem como a hotelaria pode ser uma base social solida em um Pais como o Brasil!! Gigante e lindo!!

    • blogdopeter

      Oi Patricia, agradeço! Beijo

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